Antes de partir rumo à baliza, Foca bateu duas vezes no peito, fez o sinal de ‘V’ com a mão em direção à arquibancada e relembrou ao irmão — que por fim aceitou seu convite — da promessa feita por telefone. Promessa esta cumprida com extrema competência no triunfo do Juventus por 4 a 3.

“Mano, você vem no jogo de amanhã?”. A resposta incerta do outro lado da linha em nada diminuiu a confiança e o entusiasmo. “Pode vir. Se for para os pênaltis eu vou pegar dois e garantir”. Aos 26 anos, o arqueiro Gerson Fock experimentava pela primeira vez o gostinho de ser um atleta profissional, após uma vitoriosa passagem pelo futebol amador de Joinville. Veio indicado por um rival para enfraquecer o 25 de Agosto, se tornando o ‘camisa 1’ de Dito Cola no Juventus de 1990.

O tricolor retornava ao cenário catarinense após uma década afastado das competições oficiais e o jogo que originou a ligação era a semifinal do turno do Campeonato Catarinense da Segunda Divisão, contra o Joaçaba. O vencedor da fase avançava direto ao quadrangular final. Na partida de ida, realizada no Meio Oeste, uma amarga derrota por 2 a 1 (23/05/1990). No encontro de volta, triunfo juventino no sufoco e na raça, pela contagem mínima (27/05/1990).

A decisão da vaga então foi para as penalidades máximas, disputadas no gol de entrada do teatro dos sonhos tricolor. Antes de partir rumo à baliza, Foca bateu duas vezes no peito, fez o sinal de ‘V’ com a mão em direção à arquibancada e relembrou ao irmão — que por fim aceitou seu convite — da promessa feita por telefone. Promessa esta cumprida com extrema competência no triunfo do Juventus por 4 a 3. Duas defesas que colocaram o ‘Time do Padre’ na decisão contra o Concórdia e ainda mais próximo do retorno à elite.

Mas, tal qual toda jornada do herói que se preze, existe o momento de questionar a sua competência, o seu papel no Mundo. Foca falhou feio no primeiro jogo da decisão e entregou de bandeja o empate ao Galo, após sair mal para cortar um cruzamento e ter a visão ofuscada pelos refletores do João Marcatto (30/05/1990). Falha que não foi perdoada pelo avante adversário, que mesmo de baixa estatura precisou se abaixar antes de concluir fatalmente de cabeça.

O arqueiro sentiu o baque e caiu em tentação. Pensou em desistir da carreira profissional e desta vez ligou para o seu pai, Osny Fock, uma lenda do esporte de Joinville. Já estava na rodoviária de Jaraguá do Sul, com a passagem comprada e pronto para o embarque de volta para casa, mas ao invés de consolo ganhou um puxão de orelhas e a certeza de que não seria recebido com um tapete vermelho caso retornasse.

Respirou fundo, engoliu o orgulho e voltou para o alojamento em busca da redenção. E ela não tardou a acontecer. No jogo seguinte, em Concórdia, muita chuva (03/06/1990). Logo no primeiro tempo, Foca deslocou totalmente o dedo anelar da mão direita ao trombar durante uma defesa. Doutor Glênio se apressou em colocar o membro no lugar, mas a dor era grande e no intervalo o guarda metas pediu arrego. Nem a tala improvisada a partir de dois palitos de picolés amenizava o seu sofrimento.

Dito Cola não cedeu. No banco de reservas até contava com o experiente Perolo, mas que vinha sem ritmo de jogo. Era um risco grande demais para se correr em uma decisão. Risco por risco, bancou a manutenção de Foca no gol, com a missão de sempre socar a bola para o mais longe possível.

E o arqueiro assim fez. De quebra, ganhou confiança e se tornou um muro intransponível. Solitário do outro lado do campo, assistiu ao atacante Tôto abrir o placar de cabeça, em seu melhor estilo. O artilheiro tricolor recebeu um longo lançamento e se antecipou ao goleiro adversário, dando um leve desvio na bola que entrou vagarosamente na meta, por capricho parando em uma poça de água centímetros após a linha.

A partir daquele momento o título estava basicamente nas mãos de Foca e os minutos finais foram de grande pressão. O adversário teve uma dúzia de escanteios ao seu favor mas, aliando competência com uma dose de sorte, o guardião tricolor saiu incólume de todos os lances de perigo. Ao soar do apito, uma grande festa tomou conta do ‘terreiro’ inimigo e Concórdia se tornou pequena para os moleques travessos naquela noite. Em Jaraguá do Sul, uma recepção digna do feito aguardava a equipe, com direito a desfile no carro do Corpo de Bombeiros pelas ruas centrais.

Depois de altos e baixos, enfim o nosso herói cumpria sua jornada e podia descansar tranquilo. Havia mostrado seu valor e escrito seu nome na história do ‘Time do Padre’, clube que ainda defenderia por duas temporadas antes de encerrar sua breve carreira profissional para se dedicar novamente ao futebol amador e à família, que crescia com a chegada de um novo filho.

Copyright © 2020 por Henrique Sudatti Porto
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