Aquele jogo, segundo Schiochet, impulsionou a evolução da modalidade e, por extensão, de todo o cenário esportivo local. “O evento foi um sucesso e veio provar que Jaraguá tinha capacidade de organizar bons eventos. Aquele foi o primeiro e contribuiu para os outros que surgiram depois, como o UFC e o vôlei”.
📷 Acervo Rogério Tomazelli, Jaraguá News
Jaraguá do Sul, cidade que se acostumou a respirar esporte de alta performance, com eventos do porte do UFC e da Liga Mundial de Vôlei, que lotam a Arena Jaraguá, tem uma trajetória de grandes feitos que antecede em muito a construção de seu ginásio mais famoso. Para desvendar um capítulo fundamental dessa história, é preciso voltar no tempo, mais precisamente a 18 de junho de 1998, quando o Ginásio Arthur Müller se tornou o epicentro de uma euforia inesquecível.
Naquela data histórica, nossa pacata cidade foi palco de um evento inédito: a vinda da Seleção Brasileira de basquete masculino adulto para um amistoso contra Portugal. As arquibancadas do Arthur Müller, na época com capacidade para 2 mil pessoas, transbordavam. Era a materialização de um sonho antigo, uma ideia que havia sido cuidadosamente gestada ao longo de anos por figuras dedicadas ao esporte local.
O contexto daquela partida era de grande relevância para o basquete nacional. Conforme noticiou a imprensa da época, o amistoso em Jaraguá do Sul marcava o primeiro teste da Seleção Brasileira em sua preparação para o Campeonato Mundial da Grécia, que ocorreria em julho. Desde que os treinos haviam começado em 28 de maio, no Rio de Janeiro, a equipe havia realizado apenas um coletivo.

A ideia era que o entrosamento viesse com esses jogos de preparação. “Estamos enfatizando o condicionamento físico e a estrutura de jogo nos treinos; o entrosamento vem com os amistosos, o resultado não importa”, pontuava o técnico Hélio Rubens, revelando a estratégia para o desafio que se avizinhava.
A Seleção que pisava em Jaraguá do Sul, embora sem a presença de Oscar Schmidt – o “Mão Santa”, que havia se aposentado da equipe em 1996, após as Olimpíadas de Atlanta –, mantinha a base do time que havia conquistado o terceiro lugar na Copa América do Uruguai, em 1997, garantindo a vaga para o Mundial. A espinha dorsal era, em essência, o time do Franca, mesclando diferentes gerações de jogadores que haviam defendido o clube entre 1990 e 1998.
Em quadra, Hélio Rubens escalou como titulares Demétrius Ferracciú, Chuí, Rogério Klafke, Pipoka e Josuel. No banco, aguardavam sua vez nomes como Ratto, Helinho (filho do treinador), Caio Cazziolato, Sandro Varejão, Brasília e Janjão, além do jovem Marcelinho Machado, que fazia sua aguardada estreia na Seleção.
O armador Demétrius, um dos pilares da equipe, analisava a nova fase do basquete brasileiro: “Desde a saída de Oscar da equipe, em 96, (…) a Seleção perdeu em talento, mas ganhou em conjunto. Antes, o jogo era baseado em Oscar e, um pouco antes, também no Marcel. Hoje, distribuímos mais as ações do jogo para todos os atletas, porque não temos um fenômeno em quadra”, referindo-se à dupla lendária que liderou a histórica conquista dos Jogos Pan-Americanos de Indianápolis, em 1987, contra os favoritos EUA.

O resultado da partida, uma vitória suada da Seleção Brasileira por 90 a 88, foi o arremate perfeito para uma noite memorável. O ala Vanderlei, com 20 pontos, emergiu como o cestinha do confronto, consolidando seu papel na vitória brasileira ao lado do pivô Pipoka, com seus 18 pontos. “O novo basquete brasileiro é este que apresentamos aqui em Jaraguá do Sul. Não adianta pensar em uma equipe de atiradores, com um talento excepcional como o de Oscar”, afirmou Pipoka na ocasião.
Aquela equipe, que enfrentaria os EUA, Lituânia e Coreia do Sul na primeira fase do Mundial, carregava a expectativa de um resultado melhor que a 11ª colocação da edição de 1994, no Canadá – a pior da história da Seleção, bicampeã mundial em 1959 e 1963. O ala Caio Cazziolato resumia o sentimento do grupo: “Desta vez vamos trazer um resultado melhor; desde a Copa América (disputada em 97, no Uruguai), já provamos que sabemos jogar juntos.”
A concretização desse feito grandioso para a história de Jaraguá do Sul teve um nome essencial: Airton Schiochet. Schiochet foi o arquiteto por trás da vinda da Seleção. Em uma articulação estratégica com Oscar Archer, então presidente da Federação Catarinense e vice da Confederação Brasileira de Basquete, e com o apoio imprescindível de patrocinadores locais que já investiam no desenvolvimento esportivo do município, o amistoso tornou-se realidade.

A logística da chegada da Seleção Brasileira a Jaraguá do Sul foi pensada para garantir o bem-estar dos atletas. Os organizadores, visando evitar o assédio dos fãs e permitir o descanso dos jogadores, não comunicaram o horário da chegada da equipe à população. Já a delegação portuguesa enfrentou um atraso de um dia em seu voo e só chegou à cidade ao meio-dia do dia do jogo, poucas horas antes do embate no Arthur Müller.
Apesar de 1.500 ingressos terem sido colocados à venda, ao preço de RS 10,00, e de ainda haver entradas disponíveis no dia da partida – cerca de 70% das entradas foram vendidas antecipadamente –, a euforia dos jaraguaenses foi tamanha que a presença do público superou as expectativas, com torcedores ocupando as arquibancadas muitas horas antes da bola subir. A partida teve seu início às 20h30, após a preliminar entre as equipes infanto-juvenis da Associação Desportiva Jaraguá/Colégio Marista São Luís/Dalcelis, de Jaraguá do Sul, e da Sociedade Recreativa e Esportiva Ipiranga, de Blumenau.
Para Schiochet, a lembrança daquele dia permanece vívida, pois o amistoso representou muito mais que uma simples partida de basquete. “Foi um marco para o esporte da cidade por ter sido a primeira Seleção nacional a vir para o município”, destaca. Ele pontua que, na década de 90, o basquete de Jaraguá do Sul não possuía o mesmo reconhecimento de hoje, após a criação da Associação Jaraguaense de Basquetebol (AJAB), em 2000.
Aquele jogo, segundo Schiochet, impulsionou a evolução da modalidade e, por extensão, de todo o cenário esportivo local. “O evento foi um sucesso e veio provar que Jaraguá tinha capacidade de organizar bons eventos. Aquele foi o primeiro e contribuiu para os outros que surgiram depois, como o UFC e o vôlei”, conclui, com a certeza de quem viu Jaraguá do Sul ascender à condição de referência na organização de grandes eventos esportivos.
Copyright © 2025 por Henrique Sudatti Porto
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Referências:
AVANTE ESPORTES. Histórico: o dia que Jaraguá do Sul lotou o Arthur Müller para ver a Seleção Brasileira de Basquete. 14 set. 2020. Disponível em: https://avanteesportes.com/2020/09/14/historico-o-dia-que-jaragua-do-sul-lotou-o-arthur-muller-para-ver-a-selecao-brasileira-de-basquete/. Acesso em: 19 jun. 2025.
JORNAL O CORREIO DO POVO. Seleção Brasileira de Basquetebol enfrenta Portugal no Arthur Müller. O Correio do Povo, Jaraguá do Sul, ano 80, n. 4150, p. 16, 19 jun. 1998. Disponível em: http://hemeroteca.ciasc.sc.gov.br/correiodopovo/1998/CDP19984150.pdf. Acesso em: 19 jun. 2025.
A NOTÍCIA. Brasil e Portugal jogam nesta noite em Jaraguá. A Notícia, Joinville, 19 jun. 1998. Disponível em: https://web.archive.org/web/20030907035033/http://www.an.com.br/1998/jun/19/0esp.htm. Acesso em: 19 jun. 2025.
A NOTÍCIA. Brasil vence Portugal no basquete. A Notícia, Joinville, 20 jun. 1998. Disponível em: https://web.archive.org/web/20030705062208/http://www.an.com.br/1998/jun/20/0esp.htm. Acesso em: 19 jun. 2025.
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FOLHA DE S.PAULO. Brasil derrota Porto Rico com facilidade. Folha de S.Paulo, São Paulo, 18 jun. 1998. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1998/6/18/esporte/3.html. Acesso em: 19 jun. 2025.
FOLHA DE S.PAULO. Brasil vence Canadá e pega Porto Rico. Folha de S.Paulo, São Paulo, 19 jun. 1998. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk19069801.htm. Acesso em: 19 jun. 2025.


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